Nair de Teffé, 140 anos: a primeira-dama que “escandalizou” o Palácio do Catete

Foto de Nair de Teffé no Palácio do Catete, em 1914. Acervo Museu da República/IBRAM.

Primeira mulher caricaturista brasileira, a carioca Nair de Teffé completaria 140 anos no dia 10 de junho de 2026. Filha caçula do barão de Teffé, sempre teve sua arte incentivada pela família, tanto que a assinatura para seus trabalhos, o pseudônimo Rian (Nair ao contrário), foi sugerido pelo seu irmão. Suas caricaturas foram publicadas em diversos periódicos do Brasil e da França.

Dois palácios que hoje integram o Museu da República fizeram parte da vida de Nair de Teffé. Aos 27 anos, ela se casou com o então presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca. A cerimônia foi realizada no dia 8 de dezembro de 1913, na cidade de Petrópolis, onde Nair de Teffé vivia com sua família. O Palácio Rio Negro, que na época servia como residência oficial para o veraneio dos presidentes, foi adaptado para o evento: o Salão de Despachos serviu provisoriamente como capela e o Salão Nobre foi ornamentado para a cerimônia civil.

O outro palácio é o Palácio do Catete, então sede do executivo federal e residência oficial da presidência, onde Nair viveu por um curto período, já que Hermes da Fonseca estava no final do mandato. Em 26 de outubro de 1914, para se despedir da estadia no Palácio, Nair de Teffé organizou uma festa inovadora em que abandonou os costumes da elite fazendo a música erudita dar lugar à apresentação da música popular com o uso do violão, instrumento considerado indecoroso naquela época. Nessa ocasião, a execução do maxixe Corta-Jaca, composto por Chiquinha Gonzaga, foi considerada um “escândalo” e entrou para os Anais do Senado a partir do discurso de Rui Barbosa, que fez severas críticas ao casal Nair de Teffé e Hermes da Fonseca, seu rival político. Rui Barbosa declarou que se tratava da apresentação “mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba”.

Sobre essa polêmica, Nair de Teffé declarou em entrevista à Revista Cruzeiro, em 1977: “as pedras que ele me atirou não me atingiram. Elas dormem esquecidas no fundo do mar ou da terra e só serviram para assinalar a luta que enfrentei contra os preconceitos de então”.

Após o falecimento de Hermes da Fonseca, Nair de Teffé seguiu se dedicando a atividades culturais, criando uma companhia de teatro, construindo um cinema, sem abandonar a caricatura. Viveu seus últimos anos de maneira simples e reclusa em uma casa em Niterói, falecendo no dia de seu aniversário de 95 anos.

Pioneira e transgressora, Nair de Teffé usou a arte para romper convenções e preconceitos. O Museu da República relembra seu legado com carinho.

Casamento de Nair de Teffé e Hermes da Fonseca no Palácio Rio Negro. Revista O Malho, 1913.
Acervo Fundação Biblioteca Nacional.
Nair de Teffé caricaturada por J. Carlos. Revista Careta. 1910. Acervo Fundação Biblioteca Nacional.