Instituto Brasileiro de Museus
Museu da RepúblicaO Museu

O Tempo da Casa (1867-1897)

O Palácio Nova Friburgo, atual Palácio do Catete, construído entre 1858 e 1867 pelo comerciante e fazendeiro de café Antônio Clemente Pinto, barão de Nova Friburgo, consagrou-se como um monumento de grande importância histórica, arquitetônica e artística. Erguido no Rio de Janeiro, então capital do império, para servir como residência da família, tornou-se símbolo do poder econômico da elite cafeicultora escravocrata do Brasil oitocentista. Sua concepção em estilo eclético é resultado do trabalho de artistas estrangeiros de renome, como o arquiteto Gustave Waehneldt e os pintores Emil Bauch, Gastão Tassini e Mario Bragaldi. Em 1889, passados vinte anos da morte do barão e de sua esposa, o Palácio foi vendido à Companhia do Grande Hotel Internacional e, posteriormente, antes que fosse instalada qualquer empresa hoteleira no imóvel, foi vendido ao maior acionista da Companhia, o conselheiro Francisco de Paula Mayrink. Em 18 de abril de 1896, durante o mandato do presidente Prudente de Moraes, à época exercido em caráter interino pelo vice Manuel Vitorino, o Palácio foi adquirido pelo Governo Federal para sediar a Presidência da República, anteriormente instalada no Palácio do Itamaraty.
O Tempo da Presidência (1897-1960)

Para receber os presidentes e seus familiares, foi executada uma ampla reforma sob a orientação do engenheiro Aarão Reis. Dela participaram importantes pintores brasileiros como Antônio Parreiras e Décio Villares e o paisagista Paul Villon, responsável pela remodelação dos jardins. A instalação de luz elétrica no Palácio, desde então, acentuaria o brilho dos acontecimentos políticos e sociais que ali teriam lugar.
O Palácio do Catete foi palco de intensas articulações políticas, como as declarações de guerra à Alemanha, em 1917, e ao Eixo, em 1942, e, nesse mesmo ano, da implantação do Cruzeiro como sistema monetário nacional. Entre os grandes acontecimentos sociais, destacam-se a recepção aos Reis da Bélgica, em 1920, e a hospedagem do Cardeal Pacelli, posteriormente Papa Pio XII, em 1934. Grande repercussão gerou o polêmico sarau organizado, em 1914, pela caricaturista Nair de Teffé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, durante o qual foi executado o famoso “Corta- Jaca” de Chiquinha Gonzaga, compositora e maestrina carioca. Pela primeira vez a música popular era interpretada nos salões de um Solar aristocrático.
Do Palácio emergem, ainda, memórias de momentos de consternação e comoção nacional, como o velório do presidente Afonso Pena, em 1909, e o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, desfecho de uma das mais contundentes crises político-militares republicanas. Sede do Poder Republicano por quase de 64 anos, 18 presidentes utilizaram suas instalações. Coube a Juscelino Kubitschek encerrar a era presidencial do edifício, com a transferência da Capital Federal para Brasília em 21 de abril de 1960. O Palácio do Catete, com base em decreto nº 47883, de 08 de março de 1960, passou então a ser organizado para abrigar o Museu da República, inaugurado em 15 de novembro do mesmo ano.
O Tempo do Museu (Desde 1960)

O Museu da República é vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), autarquia do Ministério da Cultura. Inscreve-se na categoria de museu histórico, embora apresente também afinidades com a tipologia de museus-casas. Situado num bairro de forte tradição política, comercial e cultural – o Catete – na cidade do Rio de Janeiro, o Museu da República ocupa o Palácio do Catete, que durante 63 anos foi o coração do Poder Executivo no Brasil.
O Museu participa de seu tempo democratizando o acesso aos bens culturais preservados, estimulando novas produções e criações culturais. Seu compromisso com a sociedade é oferecer reflexões sobre a República Brasileira.
Através de seus departamentos técnicos, de suas ambientações, das exposições temporárias e de longa duração e dos eventos culturais, o Museu da República tem procurado oferecer ao visitante um panorama da história republicana, além de constituir-se como centro de pesquisa bibliográfica, arquivística e museológica.
Buscando ainda cumprir sua função social de instituição ligada à educação, o Museu da República desenvolve ações educativo-culturais que têm por objetivo despertar o raciocínio crítico-interpretativo da história da república, trabalhando o acervo do Museu e questões político-culturais referentes a temática republicana. Para tanto, organiza também visitas orientadas para professores e estudantes, projeções de vídeos, apresentações musicais, cursos, palestras, debates, exposições de arte e eventos educativos diversos. Com base em metodologias e linguagens específicas vários segmentos de público são contemplados.
O Museu também conta com uma Galeria de Arte Contemporânea, a Galeria do Lago, que têm como proposta criar interfaces com assuntos relativos ao Museu da República: acervo, arquitetura, paisagismo, política, história etc. Eventualmente, pode propor alguma exposição de arte contemporânea no próprio Palácio, que dialogue com o acervo, e no Jardim.
A partir de 2007, o Museu da República passou a responder administrativa e culturalmente pelo Palácio Rio Negro, residência de verão dos presidentes da República situada na cidade de Petrópolis (RJ).
O Palácio e o Jardim

Palco central na história política brasileira, o Palácio e o Jardim do Museu da República foram tombados em 1938, pelo então Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), atualmente IPHAN.
PALÁCIO DO CATETE

Primeiro Andar
A entrada do Palácio se faz por um portão de ferro, fundido em Ilsenburg am Harz, em 1864. O Hall chama a atenção pela imponência da sequência de seis colunas de mármore que levam à escada principal que foi construída em módulos pré-fabricados de ferro fundido. Para seu assentamento foi contratado o serviço do arquiteto alemão Otto Henkel, em outubro de 1864. Na reforma para a chegada da Presidência, o Hall recebeu esculturas, luminárias e estuques no teto com as Armas da República, que podem ser observados até hoje.
O requinte das pinturas e ornatos e a distribuição e localização dos cômodos sugerem ter sido esse espaço, inicialmente, destinado às salas de visita e de estar, conforme o costume da época. Durante a república, a área foi redefinida, passando a abrigar setores burocráticos como secretaria, biblioteca, gabinetes, salas de despachos e de audiências.
Há ainda, nesse piso, o Salão Ministerial, utilizado, na época do Barão, para pequenas recepções. Com a instalação da Presidência, foi chamado de Salão de Despacho e Conferências e, posteriormente, Salão Ministerial, pois passou a servir para as reuniões do presidente com seus ministros. Seu teto, apesar de vários retoques, apresenta ainda a decoração original, em que se destaca a composição Baco e Ariadne.
Logo que se inicia a subida do primeiro para o segundo andar, os visitantes veem o Hall da Escada, decorado com motivos que homenageiam as artes: a pintura, o desenho, a arquitetura e a escultura. Cenas mitológicas que copiam os afrescos pintados pelo renascentista italiano Rafael (1483-1520) na Villa Farnesiana completam a decoração que tem ainda visão central de uma cópia em metal da escultura Afrodite de Cápua, que está no Museu Nacional de Nápoles.
Segundo Andar
Destinado a recepções e cerimônias nota-se o luxo e a diversidade temática dos salões, cada um deles retratando, ainda, seu uso específico no período imperial. A riqueza e os esquemas decorativos dos salões mostram como a rica burguesia da época procurava demonstrar um poder social que se consolidava.
Uma galeria, com vitrais executados na Alemanha e representando musas e outras figuras mitológicas, no período imperial fazia a ligação entre a escada íntima e a de serviços, além de servir de antecâmara da Capela. Como sede da República, esse espaço recebeu sofás e cadeiras de balanço.
A Capela era o local de recolhimento e oração dos moradores do Palácio. Ela apresenta o teto decorado por painéis reproduzindo a figura de apóstolos e duas telas, cópias das obras A Transfiguração, do italiano renascentista Raphael Sanzio, e Imaculada Conceição, do espanhol barroco Bartolomé Murillo. Para a instalação da Presidência da República, a decoração foi conservada, mas a sala teve sua utilização modificada. No período republicano, só foi usada como capela no casamento da filha do presidente Rodrigues Alves e no velório do presidente Afonso Pena.
O Salão Francês, também chamado de Salão Azul, localizado entre a Capela e o Salão Nobre, servia de refúgio e apoio às recepções oferecidas no Palácio. Ele tem estilo Luiz XVI, como se vê nos ornatos do teto, nas molduras dos espelhos e nas sanefas. Mais tarde, as paredes receberam nova pintura com toques art-nouveau, adaptada à coloração pastel da sala.
O Salão Nobre ou Salão de Baile relembra a vida social e o luxo da corte. Nele eram realizadas as principais recepções do Palácio. As pinturas verticais representam cenas mitológicas associadas à música e às artes, e, na parte superior das paredes, pinturas em semicírculo referem-se à vida de Apolo, deus da música e da poesia. A presença da música é notada, ainda, na lira que aparece no parquet do piso. Como sede da Presidência, esse salão continuou sendo o espaço mais nobre, tendo recebido sobre as portas as Armas da República. A recente iluminação elétrica refletia-se nos espelhos bizotados, por ocasião das festas. Em 1938, o painel do teto foi refeito pelo pintor acadêmico brasileiro Armando Vianna.
A função do Salão Pompeano era a de apoio aos Salões Nobre e Veneziano. Esse espaço é decorado com cenas que se reportam às descobertas artísticas das escavações da cidade de Pompéia. Nas obras de adaptação feitas no prédio, apenas o teto sofreu alteração, com a colocação das Armas Nacionais e das datas históricas: Descobrimento, Independência, Abolição e República.
O Salão Veneziano, também chamado de Salão Amarelo, era usado como sala de visitas. Seu nome decorre do estilo do mobiliário, com móveis pesados e ricamente decorados. Nele há um lustre central em bronze e cristal, candelabros e grandes espelhos. Na República, o salão foi usado como sala de música e para a realização de saraus. Um dos espelhos existentes na época da corte foi substituído por painel executado pelos pintores Antônio Parreiras e Décio Vilares.
O Salão Mourisco, tem esse nome por sua decoração inspirada na arte islâmica, era um local masculino, usado como sala de jogos e de fumar. Tem um lustre de bronze dourado e cristal rubi, mobiliário em marfim e palhinha e é decorado por esculturas e um cinzeiro em forma de crocodilo.
O Salão de Banquetes tem sua função definida pela própria decoração. Foi também utilizado, durante o período em que Getúlio Vargas ocupou o Catete, como um espaço para reuniões ministeriais. No teto do salão veem-se estuques com frutos, pinturas de naturezas mortas nos arcos, e o painel central é uma cópia adaptada da obra Diana, a caçadora, do italiano Domenichino.
Terceiro Andar
O último andar do Palácio era destinado aos aposentos privados da família do barão de Nova Friburgo e, mais tarde, das famílias dos presidentes. Com o passar do tempo, o mobiliário e a decoração foram sendo alterados de acordo com as necessidades de cada morador. Com a instalação da Presidência, novos móveis e objetos funcionais e de decoração foram encomendados. Alguns exemplos deste mobiliário estão integrados ao circuito histórico.
A galeria circunda todo o centro do prédio e possibilita uma visão mais aproximada da claraboia composta por 266 peças e decorada por um vitral que confere um belo colorido à iluminação natural que invade o Palácio.
O quarto presidencial foi marcado pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.
JARDIM HISTÓRICO

Iniciada a construção do Palácio, o Barão de Nova Friburgo adquiriu novas terras, incorporando a área ao fundo do terreno e a aleia central do parque, onde já havia as palmeiras existentes até hoje. Com a compra do Palácio pelo governo federal, em 1896, uma grande reforma foi empreendida no Jardim. A remodelação ficou sob a coordenação de Paul Villon, paisagista discípulo de Auguste Marie Françoise Glaziou. No ano de 1960, com a criação do Museu da República, o Jardim foi aberto ao público.
O Jardim Histórico do Museu da República é muito mais que apenas parte do acervo museológico da instituição. Originalmente um espaço privado, foi local de desfrute dos barões, presidentes e suas famílias, desde sua criação, de meados do século XIX até 1960, ano da criação do Museu da República. até então, o povo tinha raras oportunidades de usufruí-lo. Hoje é um espaço vivo, aberto a todos que integra o cotidiano da cidade do Rio de Janeiro.
Alguns destaques do Jardim:
Chafariz e a escultura: O Nascimento de Vênus
O chafariz ficava, originalmente, no Largo do Valdetaro, em frente ao Palácio. Durante a pavimentação e revitalização do centro da cidade, no fim do século XIX, ele foi retirado do Largo, reformado e instalado no centro da aleia de palmeiras do Jardim quando foi acrescentado o grupo escultórico em bronze representando a lenda do nascimento de Vênus.
Chafariz dos Leões
Próximo à fachada posterior do Palácio havia um grande viveiro de pássaros e em seu interior um chafariz com três bacias de água, popularmente denominado Chafariz dos Leões que foi instalado no Jardim do Palácio algum tempo depois de sua inauguração como sede da Presidência da República em 1897. Confeccionado em mármore de carrara, o chafariz era composto por três bacias superpostas que se perderam com o tempo. O projeto de restauração de 2024, com base em documentos históricos, reconstruiu em concreto armado as bacias perdidas.
Grupo escultórico: Cinco Continentes
Espalhadas pelo Jardim, cinco obras de Mathurin Moreau, oriundas da Fundição do Val d’Osne, na região de Champagne, na França, são parte do acervo que faz do Rio de Janeiro a maior cidade fora da França com peças produzidas nessa fundição, sendo Moreau, seu maior representante.
Coreto
Durante as reformas de adaptação para a instalação da sede da Presidência da República, um antigo banheiro do parque foi transformado em coreto, seguindo a tendência dos logradouros públicos tanto em voga no período.
Gruta
Paul Villon, paisagista contratado para a reforma do Jardim construiu um mirante em forma de rochedo encimando uma gruta e cascata. Um pequeno lago circunda o conjunto em Rocaille.
Hoje, a cidade do Rio de Janeiro é Patrimônio Mundial na categoria Paisagem Cultural Urbana desde 2012 e o Museu da República e seu Jardim Histórico fazem parte desse notável patrimônio.